Duas novas espécies de bugio descobertas na Amazónia
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Investigação genómica internacional descreve novos primatas, 84 anos após a última descrição, e alerta para riscos no "Arco do Desmatamento".

Investigação genómica internacional descreve novos primatas, 84 anos após a última descrição, e alerta para riscos no "Arco do Desmatamento".
Uma equipa internacional, liderada por cientistas da Universidade de Salford e com a participação de investigadores do CIBIO-BIOPOLIS – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, identificou duas novas espécies de bugio na floresta amazónica, com base em análises genómicas, na comparação morfológica de espécimes de museu e em novos dados de campo. O estudo, publicado na revista Communications Biology, quebra um hiato de 84 anos sem novas descrições deste género de primatas e alerta para o risco iminente de extinção que estas populações enfrentam devido ao avanço da desflorestação.
Os macacos-búgios são primatas arborícolas de grande porte, célebres por suas vocalizações estrondosas, usadas para marcar território e manter o grupo unido. Os seus rugidos são os mais potentes entre os animais terrestres, ecoando por quilómetros nas florestas tropicais da América do Sul.
A investigação colmata duas falhas crónicas no conhecimento biológico: a lacuna linneana (o número real de espécies existentes) e a lacuna wallaceana (a sua distribuição geográfica precisa). Ao longo de milhões de anos, a dinâmica dos grandes rios amazónicos isolou populações de primatas em margens opostas, promovendo a evolução de linhagens independentes que permaneceram desapercebidas aos olhos dos cientistas.
Para construir a história evolutiva mais detalhada deste grupo até à data, os cientistas sequenciaram os genomas de 11 espécies de bugios da América do Sul e Central e combinaram esses dados com medições morfológicas detalhadas de espécimes preservados em coleções científicas, como as do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (INPA).
Principais resultados do estudo:
•Descoberta de duas novas espécies: foram identificados e descritos o bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis), endémico do centro do Brasil, e o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), endémico do noroeste amazónico.
•Fim de um hiato de 84 anos: trata-se da primeira identificação de duas novas espécies deste género desde 1940, ano em que foi descrito o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis).
•Rios como barreiras biogeográficas: demonstração empírica de que os rios Amazonas, Branco e Xingu atuaram como barreiras naturais permanentes, impedindo o fluxo génico e impulsionando a especiação.
•Ameaça crítica de conservação: localização do habitat de A. matogrossensis no "Arco do Desmatamento", na região sul da Amazónia, sob severa fragmentação florestal decorrente da expansão agrícola.
"O nosso estudo mostra que a Amazónia ainda guarda segredos biológicos notáveis, mesmo entre animais tão icónicos como os bugios", afirma Romina Batista, investigadora da Universidade de Salford e primeira autora do trabalho. "Compreender as diferentes espécies existentes e a sua distribuição real é o primeiro passo para desenhar planos de conservação eficazes face à rápida perda de habitat."
Thiago Semedo, aluno de doutoramento do programa doutoral BIODIV da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, refere: "A descrição de novas espécies de primatas em regiões da Amazónia onde achávamos que conhecíamos a diversidade de vertebrados indica que precisamos de priorizar cada vez mais este tipo de estudos para que, de facto, possamos proteger uma diversidade escondida e encurralada no arco do desmatamento.”
Para Luis Ceríaco, do CIBIO-BIOPOLIS, este trabalho "É a prova de que precisamos de continuar a inventariar a biodiversidade do planeta. Mesmo num grupo de macacos tão icónicos como os bugios, encontrámos duas espécies desconhecidas para a ciência – imaginem noutros grupos de animais e plantas. São necessários mais taxonomistas (os cientistas que descrevem espécies novas para a ciência), mais trabalho de campo e mais reconhecimento das coleções de história natural como ferramenta indispensável para a investigação científica.”
Artigo científico:
Batista, R., Semedo, T.B.F., Beck, R.M.D. et al. (2026). Genome-wide analyses reveal recent diversification and hidden diversity in Amazonian howler monkeys, including two new species. Commun Biol.